
Com os dedos, ela toca. Afaga-a como se quase se lembrasse. Sente a ponta do dedo arrepiar-se com o tamanho dela. Quase que solta um grito, mas emudece-o na boca. Não vai gritar. E se os vizinhos a ouvem? O que irão pensar? Principalmente a vizinha do 4º direito que passa os dias a dedilhar as cortinas das janelas quando alguém passa. É uma velha decrépita que vive atrás das cortinas e da porta, quando alguém entra no prédio. Ela obra no escuro e no silêncio, atrás das cortinas da porta escura que ostenta o número 4.
Não resiste e solta um gritinho. Logo sente a velha com pernas de barata a correr em direcção à porta, os ouvidos encostam-se na tentativa de descobrir que grito fora aquele. Fora descoberta. O corpo permanece imóvel, a boca entreaberta, o dedo em cima dela. Nada se mexe. Os músculos congelam-se até a velha insatisfeita regressar ao que estava a fazer. Talvez agora estivesse a dedilhar nas cortinas brancas de renda com as pontas dos dedos já rendilhados de tanto as afastar.
Ganha coragem e afasta o dedo dela. Leva-o à boca e molha-o com saliva. Era hoje que iria descobrir aquela parte desconhecida de si. Hoje aquele território desconhecido e escuro, seria desbravado e iluminado. Ela queria-o. Disso dependeria a sua permanência no presente. Não iria fingir que aquela parte de si não existia. Ela queria conhecê-la e assim conhecer-se.
Durante muito tempo, ela olhava para ela enquanto tomava banho. Nunca tivera coragem de lhe tocar, talvez porque o barulho da água a assustasse. Olhava muitas vezes nua à frente do espelho. Parecia rosácea. Parecia tão inocente. Parecia uma racha num muro de pele. À volta deixara de nascer pêlos, talvez tivessem medo de perturbar o descanso dela. Certos dias, ela parecia encerrar um segredo terrível. Fechada como se fosse uma ostra.
Começou por fechar os olhos assustados. Primeiro um, depois o outro. O dedo humedecido perpassou o ar até ficar a milímetros dela. Parou com medo de gritar e trazer a velha decrépita à porta. O dedo estremeceu, a saliva quente arrefecera com o movimento e com o medo de ser descoberto. Iria continuar, iria vencer o medo. Raios parta a velha com as pernas de barata! Que se fodesse! Hoje nada iria travar o dedo de a tocar.
Avançou-o e tocou-a como se tocasse numa lâmina enferrujada. Há quantos anos ela estava ali? Há quanto tempo aquilo rasgara a sua pele? Quem a rasgara ali?
Sentiu o cérebro aos trambolhões. Doíam-lhe as têmporas. Com os olhos fechados, na escuridão dos olhos, ela primeiro ouviu. Berros, palavras que não conseguia distinguir. Depois ela viu os dentes alinhadamente afiados na boca. Vermelha e molhada. Aquele rosto. Ela já o tinha visto, mas noutro tempo. Na sua infância. O rosto que ela amara escondida atrás do escorrega. De repente o barulho de uma mão, escondida atrás das costas, desvia-lhe o olhar. Vê a lâmina a brilhar aproximar-se de si. Primeiro sente uma dor aguda, depois o sangue a jorrar. É este o segredo que trago escondido nas mãos, o rosto grita-lhe. Não quero que me ames nunca mais, ouve enquanto perde os sentidos.
Um grito estremece o prédio. A velha decrépita cai do alto das suas pernas de baratas. Ela abre os olhos e o dedo continua nela. Ela agora é vermelho sanguíneo. Dói-lhe a cicatriz, mas ela sabe tudo agora. Sabe o que realmente aconteceu. Sabe que a cicatriz esteve adormecida durante muito tempo, mas que agora ela acordou.
Chora. Chora porque sabe a verdade e porque ainda a ama. Aquela que escondera nas mãos o segredo que ela tanto queria desvendar.



