segunda-feira, 21 de junho de 2010

Há coisas sem explicação, mas a loucura explica-se

Nunca ninguém lhe contara como foi. Talvez tenha sido isso que o fez, ainda criança, começar a brincar com a faca. As tias enfurecidas diziam. Um dia este miúdo enlouquece.
Da mãe guarda uma única memória. O dedo dela na boca dele. O sabor do dedo nos lábios dele. O mesmo dedo que ele procurava na velha fotografia que um dia encontrara dentro de um livro num dos quartos desabitados da velha casa. Tudo cheirava a mofo. O chão. Aquele papel de parede medonho. O pó. Os móveis que durante a noite lhe amedrontavam os sonhos. Vinham pé ante pé soprar-lhe no ouvido. Não percebia nada do que lhe diziam. Talvez por falarem uma língua que lhe era estranha. A língua dos moveis mortos. Mas a mãe não cheirava a mofo. Ela era luz dentro do livro. O perfume do dedo dela na boca dele. Procurara em vão pelo mesmo dedo na fotografia, mas não o encontrara. Encontrara a mãe sorridente a cortar um enorme bolo. Ela perfumadamente vestida de branco e ao lado dela um borrão humano negro que o bolo ocultava o rosto e corpo. Depois disso alguém lhe soprara no ouvido e a memória se desvanecera. Tentara procurar a foto mas não a encontrou dentro do livro. Encontrara antes a faca. E a partir desse dia tudo começou.
As tias enfurecidas diziam. Um dia este miúdo enlouquece. Ele sentado em cima do tapete passava a faca em torno da cabeça. Por que fazes isso? Estupefactas. Para dissecar as minhas ideias e pensamentos. Não haja duvida terá o mesmo destino. Diziam ambas em coro e voltavam para dentro de si mesmas. Delas ouvia a mesma ladainha todos os dias e delas não queria saber. Elas sabiam o que tinha acontecido a fotografia. A faca dissera-lhe ao ouvido, no mesmo dia que os moveis deixaram de o amedrontar.
Anos passaram e ele viu o seu corpo crescer. Primeiro chorou sozinho. Assustado. Depois esqueceu-se de chorar. Aterrorizado.
Vieram os primeiros amores porque o ser humano tem fome de amor. Um nunca preenche o coração. O coração é um estômago. Um atrás do outro. Todas as formas de amor. Mulheres que se abriam com pernas, braços e boca e homens que o confortavam com palavras, mãos e joelhos. A faca agora afagava o seu sexo quando a sua fome determinava a vontade. As tias enfurecidas diziam. Um dia este miúdo enlouquece. Ele ignorava-as e elas desapareciam. Desdentadas e enrugadas. Ele acalmava a vontade com a faca no sexo.
Depois vieram as desilusões. As pernas já não se abriam. As bocas fechavam-se. Os braços não se moviam. As mãos fugiam. Os joelhos já não se dobravam, mas as palavras eram outras. Palavras descoordenadas. Duras e frias. Mas a faca continuava lá. Decidido a acalmar aquelas mil dores passava a faca em cima do coração. Mas a dor não desaparecia. Aquela mesma dor vazia escorria-lhe coração abaixo. As tias subitamente apareciam e diziam. Um dia destes este miúdo enlouquece. Tal como a outra que enlouqueceu.
Nessa mesma noite, os móveis vieram e falaram-lhe ao ouvido. Acordado e vazio, ele soube. A verdade da sua existência. A verdade contida no dedo da mãe. Aquele dedo naquela boca daquela criança que ele já não era naquela noite. Os móveis estavam lá. Naquele dia. Ela com eles nos braços. O dedo que beijou a boca dele. Perdoa-me mas um dia eu voltarei para te acalmar esta mesma dor que eu sinto. Foi naquele mesmo dia que a mãe escondeu a fotografia dentro do livro e pegou na faca.
Aquela mesma faca que ele passara no coração todo aquele tempo. A faca que de repente lhe acalmou a dor. Vem está na hora. Disse-lhe a voz que ele se esquecera de reconhecer. Está na hora de estarmos juntos. Primeiro ele viu o dedo. Perfumado. Abriu a boca e deu o último fôlego de ar. A mão juntou-se o corpo, depois o rosto. E depois luz que lhe preencheu o vazio do coração. Finalmente estava em casa.
Eu não disse que ele um dia enlouquecia. Disseram as tias que se arrastaram até as janelas e fecharam as cortinas.

Lá fora, o sol fazia sombra na velha casa.